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Historias da Moda –> 1900 a 1920

Ballet Russo

No início de 1900, para ser considerada de bom gosto, a moda necessitava do uso de cores pastéis, leves e suaves. As cores vigentes eram o rosa pálido, o azul claro, o malva e o preto, que, quando usado, era recoberto de lantejoulas adquirindo muito brilho. As mulheres do início do século XX faziam o possível e o impossível para demonstrar fragilidade. Comparando-se a delicadas flores, podiam fenecer em poucos segundos se algo lhes ferisse a sensibilidade. A palidez era imprescindível. Para se atingir este objetivo, tudo era válido, inclusive tomar vinagre e se esconder do sol e do ar fresco. Bronzeado, então, nem pensar, era o supra-sumo da vulgaridade. As cores das roupas refletiam esta postura. Além dos tons suaves, estavam muito em voga as estampas florais. Estas compunham-se com sapatos, pequenas bolsas e chapéus.

Após 1886, as coisas haviam começaram a mudar, quando Harriet Hubbard Aver passou a promover o uso de cremes faciais e outros produtos contra o envelhecimento. Em uma época em que o valor da mulher estava na sua beleza, juventude e fertilidade (aliás, como ainda hoje), não é de se admirar que estas batalhassem para evitar os estragos da idade. Para as jovens debutantes, as únicas cores aceitáveis eram o branco ou tons extremamente claros, quase apagados. Esta regra era seguida por todas as mulheres, pelo maior tempo possível. A cor clara e suave das roupas era complementada pela fragrância de lavanda. Para ser considerada uma dama a mulher tinha, obrigatoriamente, que cheirar a lavanda. Qualquer outra essência era considerada vulgar e de mal gosto.

 O cabelo era considerado a coroa de glória da mulher. Sempre longo e abundante, era muito comum o uso de apliques para se obter este efeito. No seu afã de parecerem sempre jovens e naturais, os cabelos eram tingidos e as ondas eram um must. Em 1908, Marcel de France introduziu o Marcel wave, uma nova técnica de encrespar os cabelos com a ajuda de ferros quentes, técnica esta que passou a competir com a permanente, inventada em 1906 por Charles Nestle que, com a ajuda de uma máquina elétrica e eletrodos ligados às cabeças extremamente corajosas criava o ondeado permanente dos cabelos.

Enquanto consideradas jovens, as mulheres seguiam a moda, após passarem a ser consideradas “senhoras” passavam a ditar a moda. As líderes da moda até o início do século XX eram as matronas senhoras de meia idade. O uso de cosméticos era bastante comum, porém jamais anunciado. Podia-se usar, mas nunca anunciar. Umas das raras exceções a esta regra ficou por conta da rainha Alexandra, quem exibia com muito orgulho suas faces maquiadas, o que causava grande choque e consternação à sociedade da época.

Não que as damas da sociedade negassem completamente seu direito de parecerem belas e jovens com a ajuda do uso de cosméticos. Elas apenas batalhavam para preservar o mito de que eram naturalmente belas sem nenhuma ajuda artificial. Uma certa senhora Henning, que possuía um salão de beleza em South Molton Street em Londres tornou-se uma das profissionais de beleza mais procuradas da época pela simples razão de seu estabelecimento possuir uma porta traseira, pela qual as damas, pesadamente veladas, podiam entrar discretamente. O salão da Sra. Henning, que posteriormente passou a chamar-se House of Cyclax, oferecia o que existia de mais moderno em matéria de maquiagem: cremes, 3 diferentes tons de rouge além dos papier poundre existentes até hoje, atualmente vendidos pela Avon. Estes vinham em folhas, formando pequenos livros e serviam para eliminar o brilho do nariz e das faces. Pequenos pedaços de carvão eram usados para escurecer os cílios e pétalas de gerânio e papoula serviam para colorir os lábios. Até 1909 os cosméticos eram vendidos de forma extremamente discreta, e permaneciam sempre escondidos sob o balcão das lojas e salões de beleza. Em 1909 na Oxford Street, em Londres, a Selfridges quebrou um tabu e passou a expor os cosméticos abertamente. A sociedade começava a mudar.

O ciclismo e o tênis passaram a fazer parte do currículo social de jovens e senhoras, porém os padrões de beleza não se modificaram. Era muito difícil preservar a cútis branca e a aparência frágil com a constante exposição aos raios solares, inevitável na prática de esportes ao ar livre. Não é de admirar que Helena Rubenstein tenha causado furor ao abrir seu salão em Londres em 1908 e em Paris em 1912. Médica polonesa, Helena Rubenstein imigrou para a Austrália em 1902, aonde abriu seu primeiro salão. Oferecendo uma consulta especial grátis e vendendo seu creme milagroso, que protegia a pele dos raios solares, cuja formula trouxera da Polônia, Helena revolucionou os padrões da beleza feminina no início do século XX. As mulheres chegavam veladas e, como era costume da época, sem trazer dinheiro consigo apesar de estarem dispostas a pagar resgates de rei pela nova técnica de embelezamento.

Foi então que, em 1910, Sergei Diaghilev trouxe a riqueza de cores do ballet Russo para dentro dos anais da moda européia, transformando radicalmente a sociedade do novo século. É difícil imaginar o impacto que a peça Schéhérazade causou sobre uma sociedade hermeticamente assentada sobre suas bases tradicionalistas. O mistério, sensualidade e sobretudo o colorido intenso dos costumes orientais criados por Leon Bask causou um verdadeiro furor. Suas criações em estilo oriental, de cores vibrantes e audaciosas, usavam e abusavam de bordados e apliques. As personagens se transformavam em escravas de Paxás, vestidas com turbantes e calças de harém.

Da mesma maneira como impressionou a todos os que assistiram a peça, é fácil compreender o porque de ter causado uma verdadeira febre de criatividade entre os designers e estilistas da época. O mais importante nome entre todos os que se renderam aos encantos do Oriente foi, sem dúvida, Paul Poiret. Filho de um comerciante de tecidos de La Halles e dono de um ego incomensurável, Poiret era a essência da sofisticação parisiense, considerava-se um modernista, era patrono das artes e colecionador ávido e apaixonado de miniaturas da cultura Muhgal da Índia. É certo que tal paixão tenha criado uma profunda familiaridade com os costumes orientais, a ponto de mesmo os pequenos detalhes estarem indelevelmente gravados em sua mente, tal qual a combinação e manipulação de cores vivas e vibrantes e das estampas audaciosas, sua marca registrada. Após um breve interlúdio com a House of Worth, Poiret abriu seu próprio ateliê em 1906. Seu amor pela publicidade e pela moda, além de seu estilo de vida extravagante tornaram-no figura constante na imprensa da época. Além de Poiret, vários outros nomes importantes sucumbiram aos encantos do exótico, criando um movimento que passou a ser conhecido como Orientalismo.

Entre eles estão Mariano Fortuny, pintor e inventor, criador de lenços inspirados nas culturas grega e cretense. Famoso pelo Delpho gown, sua criação de 1907, com seu processo de plissar o tecido, que manteve em absoluto segredo, seu uso de cores era considerado glorioso, com tonalidades brilhantes que conseguia obter através do uso de pigmentos vegetais, uma agradável mudança visual, dado o costume de se usar anilina nos tingimentos da época, o que provocava um efeito um tanto cru no tecido. Outro nome influente da época no Orientalismo foi Raoul Dufy, um dos fundadores de movimento Fauvist (de 1905 à 1908). Este movimento, apesar da curta duração teve grande repercussão na arte da época. Seguindo um estilo essencialmente expressionista, caracterizava-se pela distorção das formas e pelas cores exuberantes. Após 1908 apenas Matisse continuou explorando esta vertente, os outros partiram para o Cubismo. Dufy trabalhava com estamparia e foi responsável por várias das estampas inesquecíveis de Poiret através de sua interessante e inovadora técnica de tingimento. Posteriormente Dufy foi responsável pela criação de estampas dramáticas em sedas e brocados para uma famosa empresa têxtil francesa. Na área teatral Erté se destacou por suas criações exóticas e alongadas. Erté trabalhou com Poiret e, para a Harpers Bazar, fez belos trabalhos de criação nas capas da revista. Criou costumes para Diaghilev além de trabalhar com design e costumes teatrais em New York e Paris.

 Com o Orientalismo, a preocupação com as cores fortes transformou a maneira de encarar a maquiagem. Com uma moda tão teatralmente exuberante o rosto limpo e natural tornava-se uma incongruência. A maquiagem fez-se pesada. A tatuagem passou a ser lugar comum. O que hoje é conhecido como maquiagem definitiva passou a imperara nos idos de 1910. Muitas das damas da sociedade mantinham seus lábios vermelhos, bochechas rosadas e sobrancelhas escuras, permanentemente maquiadas, graças as artes da tatuagem.

 Para completar a escandalosa revolução, não só as cores e a maquiagem tornaram-se audaciosas mas a própria moda em si. Em 1913, surgiu o decote em V, criando uma verdadeira revolução social. Denunciado pela Igreja como uma exibição indecente e pelos médicos como um verdadeiro perigo para a saúde foi apelidada de “Blusa Pneumonia”.

 As cores, antes suaves, consideradas de bon ton, como o rosa pálido, azul claro e o malva, praticamente desapareceram, dando lugar a uma paleta de cores exuberantes como o laranja; azuis fortes e brilhantes; vermelho ardente; tons de amarelo forte, dourado e verdes azulados, os especiais de Poiret. Apenas a Primeira Guerra Mundial arrefeceu a exuberância desta moda profundamente sensual e colorida, com a necessidade de uma postura extremamente austera, condizente com os anos de luta, que acabou sufocando a moda até, praticamente, o início dos anos vinte.

Por Patricia Douat Garcia

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